terça-feira, 23 de agosto de 2011

EDIÇÃO 12

Leitores Saudosos do Zarayland, estou de volta depois de um hiato em que resolvi tirar umas férias do Blog e viajei um cadinho. Fui ao Rio duas vezes, comemorei o aniversário do Cineclube Buraco do Getúlio, viajei de novo, comemorei o aniversário de minha filha Diva, revi grandes amigos como Ricardo Siciliano, Marton Olympio e Odervan Santiago – alguns que não via há uns 10 anos. E enquanto por aqui, meu senhorio pediu o apartamento, me forçando a procurar outro lugar tão agradável quanto este em que estou agora, para morar. No Rio soube há poucas horas que uma querida vizinha nos deixou. Por isso este Zarayland eu dedico a nossa doce Dona Nilda. Vou sentir sua falta... Fique com Deus!

O Zarayland 12 ficou assim então:

1) A Casa de Cultura de Nova Iguaçu, não o Espaço Cultural Sylvio Monteiro, mas aquela nos pés do viaduto João Much ao lado da Praça do Skate, é meu primeiro assunto.

2) Na coluna Meu Povo, faço um ensaio sobre meu irmão André Eira.

3) Falo sobre três Cineclubes marcantes para mim: O Mate com Angu de Duque de Caxias, o Buraco do Getúlio de Nova Iguaçu e o Cine Banquete daqui de Recife.

4) Conto a primeira parte da aventura de carnaval de 1993 vivida por mim e por Jr. Blue, onde tudo deu errado e ao mesmo tempo tão certo.

5) Coluna DMV de Marlos Degani, versa sobre Eu Canto Samba de Paulinho da Viola.

Boa Leitura,

Um beijo um queijo e um beliscão de caranguejo!

Zaray

Casa de Cultura de Nova Iguaçu

Um convite serigrafado com uma bela gravura de Orlando Rafael era a passagem para conhecer os artistas de minha cidade. Onde? A inauguração da Casa de Cultura de Nova Iguaçu em 1989.

Na época eu estava mesmo interessado em outra coisa, na verdade em alguém que queria impressionar. Uma amiga de minha irmã (por quem meu coração batucava naquele tempo) e a levei para a inauguração.

Lembro-me que estava quente e que ficamos do lado de fora conversando. Lá dentro era muito blá blá blá. E depois fui embora e não voltei tão cedo.

Em 6 de dezembro de 1991 lançamos o Desmaio Públiko e aí tudo mudou. Conheci o poeta Moduan Matus que publicava no fanzine e, numa das edições, não havia me passado seu poema. Pediu-me para ir até a Casa de Cultura – onde trabalhava então – para que pudesse me entregar seus versos. O advento email ainda não era popular.

Na hora do almoço eu e Eud Pestana fomos até lá e adoramos tudo que vimos. Da inauguração para aquele dia passaram-se poucos anos, mas eu já era outra pessoa e enxerguei aquela Casa como um espaço onde poderia encontrar pessoas com os mesmos interesses que o meu. Onde poderia viver a arte profundamente.

E foi isso que aconteceu nos meses seguintes. Não saíamos de lá. Dormíamos lá. Sob a direção de Raimundo Rodrigues a casa ganhou a galeria Walmir Ayala com exposições de arte contemporânea, aulas de yoga com a poeta Líriam Tabosa, aulas de teatro e mímica com Alexandre Ribeiro, diversos shows musicais, cineclube, clube de tapioqueiros, aulas de esperanto, tai-chi-chuan, oficina de arte, Encontros com a Poesia, entre outras manifestações artísticas.

A Casa de Cultura me propiciou também conhecer algumas pessoas especiais de minha vida. Foi lá que conheci a já citada Lirian Tabosa, Almeida dos Santos (o Bolão), Demétrio Oli, Fernanda Morais e o grupo Elementum, o próprio Raimundo Rodrigues e Julio Sekigushi, Pão com Ovo (Mega), Fátima do Rosário e tantos outros caros amigos que até hoje brilham em meu peito e lembrança.

Várias histórias que só poderiam acontecer em determinada época, foram vividas por lá também, como a vez em que depois de termos fechado o Daniels Bar ficamos bebendo e declamando poemas para nós mesmos até tarde no bar da Casa de Cultura e acabamos dormindo por ali.

Quando acordamos na manhã de domingo, o Raimundo Rodrigues estava puto dizendo que o pessoal do Tai-Chi estava para chegar e precisávamos arrumar aquela bagunça. Limpamos o que pudemos, mas na hora de acordar o Moduan, quem disse que conseguimos? Ele deitado no palco sonhava lindamente com musas platônicas.

A saída? Pegamos o poeta pelas mãos e pelos pés, fizemos um cercadinho com os cubos praticáveis que montavam o palco e o colocamos lá e o cobrimos com o pano de fundo do palco. Pronto! Imagino o susto que Moduan tomou quando acordou horas mais tarde dentro daquele “caixão”.

Com problemas financeiros – a Casa não recebia subsídios municipais e era praticamente bancada pelos cursos e pelo seu “dono” Emanoel Emir – chegamos a fazer algumas manifestações para arrecadar fundos para a Casa, como a “Vaquinha” pelas ruas do Rio e ato na Cinelândia, mas não foi suficiente e infelizmente, meses depois d’eu redescobrir a Casa de Cultura de Nova Iguaçu, ela encerrou suas atividades deixando um vazio que até hoje, nem com o Espaço Cultural Sylvio Monteiro foi ocupado.

MEU POVO: André Eira

Nascido André Luis Pereira quase seria André Pera. Salvei meu irmão na hora: Que isso Vavá? Eud: ele precisa de um pseudônimo para assinar seus sonhos. Mas péra! Pera cumpadi? Eira então. E ficou. Ele nem gostou muito na época, acostumou. Conheci porque namorou minha irmã quando ainda era seu aluno. Depois foi morar lá em casa. Ficávamos acordados esperando o Pixies tocar na Fluminense FM e demorava. Viramos irmãos não sem antes odiar seu aprendizado téum téum téum no violão. Mas gostava de DeFalla e eu também. Gostava de Lô Borges e eu também. Achava meio doido e ele me achava também. Fez Educação Artística na UERJ e eu também. Não terminei. Ele sim. Namorei uma menina e ele também. Na mesma época, porra sacanagem. Fizemos consórcio para comprar LP e ele ficou com a maioria dos meus. André para todos é irmão e para mim principalmente. Sua casa em Morreba era o esconderijo perfeito para filosofia boemia alegria energia e outras ias que iam e não voltavam. Depois mudou para Cerâmica onde recebe amigos e exibe seu Jackson Pollock feito a 4 mãos com Paola que virou Paoleira. Meus irmãos. Estou sempre por lá quando vou ao Rio. Respirar. Pirar. Gargalhar. André é músico, mas nem toca mais. Tem coleção de vinil gigante, mas nem ouve mais. Baixa tudo e baixa mais. Shows que me apresenta e presenteia. Arcade Fire, Pixies, Radiohead. Tivemos uma banda juntos. Eu ele e Alexandre Cavalão. Levianas. Era banda de malucos que nunca tocou. Eu e ele gravamos umas músicas do Fellini, Picassos Falsos, e nunca mais soube onde foram parar aquelas fitas. Eu nos teclados ele no violão e os cachorros latindo. É poeta, mas nem se acha. Aposentou-se de tantas coisas para saber de que coisa era feito. Ainda não descobriu. Mi Casa Su Casa. É assim para quem quer chegar por lá. Diz que não ama, é vaselina. Mentira. Ama mais que muitos que repetem isso a torto e a direito por aí. Não tem um que não goste dele. Deve ser vaselina mesmo. Sabe de tudo um pouco. Mas ouve todos que é uma beleza. Mas quando não concorda vira a noite em cima de um mesmo assunto até achar que já deu. Seu dedo antes em riste, recolhe-se e diz: valeu. Amo de coração este surfista prateado e sinto muita falta dele aqui perto de mim. Por que como diz ele: “Tá comigo tá com Deus”.

CINECLUBES

O Mate com Angu

Admito que não saiba ao certo como foi fundado o Cineclube Mate com Angu, assim como também não tenho certeza de todos os personagens envolvidos. HB, Bia Pimenta, Igor Barradas, André Oliveira, Maravilha são alguns dos punks responsáveis. A educadora Armanda Álvaro Alberto a inspiradora do nome e do caráter revolucionário. Nove anos, sei, comemoraram agora no último dia 27 de julho.

Infelizmente não pude ir ao Rio para brindar junto aos meus amigos esta data tão importante para Duque de Caxias, para a Baixada Fluminense, para o Rio de Janeiro e porque não, até para nós aqui, do Recife. Já que o homenageado da Sessão de Aniversário foi o poeta recifense Solano Trindade. Poeta, artista plástico, ator que entre outras atividades culturais, idealizou o Primeiro Congresso Afro-Brasileiro lá em 1934.

O Mate com Angu prestou devida homenagem, saciando a fome dos presentes com os filmes “Expera” de Guilherme Zani e “O Vento Forte do Levante” de Rodrigo Dutra. Além, é claro, de festa que deve ter sido muito boa como as que participei como Dj durante o ano de 2007.

Conhecia uns cabras que tocavam a pajelança, mas até então nunca havia ido a uma edição. Mas nos esbarrávamos sempre em outros eventos onde atuávamos como convidados. Um deles foi em Belford Roxo no evento que o Roger Hitz organizou no terreno baldio em frente a sua casa com shows de Coyote Valvulado e Caô de Raiz, exibição de filmes do Mate com Angu, poesia com Sylvio Neto enquanto eu esquentava o público como DJ, colocando doses de músicas envelhecidas em barril de vinil. Ainda que fossem CDs.

HB e André Oliveira ouviram e curtiram.

Logo depois fui convidado para tocar numas das Sessões do Mate com Angu e acabei ficando quase um ano como Dj residente e me extasiando com os filmes, o clima, as pessoas e o ambiente do cineclube. Sentia-me em casa na Lira de Ouro, quase um “Mateiro”. Eu e Marcelo Peregrino chegávamos cedo montávamos os equipamentos e já começava a festa. E só ia acabar quando pediam para encerrar. Não pelo público e nem por mim. Mas pelas altas horas em que a carruagem já ia.

O Mate com Angu sempre teve um público festeiro, porém interessado nos filmes. Biriteiro e ao mesmo tempo criador. Ali ríamos, nos chocávamos, cantávamos e nos alegrávamos com as projeções.

O Mate com Angu é isso. Muita gente bonita de todos os cantos brotam em suas sessões. Tinha até um ônibus que saía do Passeio no Rio (cidade) para Caxias. As atrações nunca eram e nem são fechadas em determinado segmento musical. Do rock’n’roll ao samba. Do forró a eletrônica. Tudo cabe lá.

Admito que estou muito afastado de meus amigos do Mate. Ainda que eles estejam sempre em minhas lembranças e em meu coração. Um dia eu volto e onde o Mate com Angu (o Cerol fininho da Baixada) estiver, vou querer estar novamente na primeira fila.

Toda Última Quarta-feira do Mês
Ponto de Cultura Lira de Ouro
Rua Sebastião de Oliveira
(próximo ao calçadão, paralela a Nilo Peçanha), 72
Centro - Duque de Caxias
Informações: 21 3774.4157


O Buraco do Getúlio

O Buraco é de uma geração mais nova que o Mate com Angu. Com características semelhantes, porém com identidade própria. Desde seu nascedouro se caracterizou por fazer parte da “Geração Delírio” alcunha que batizou toda uma galerinha que apareceu logo depois que nós do Desmaio Públiko, Agito Cultural, povo do Daniels Bar chegamos aos trinta.

Uma turma de artistas novos, cheios de idéias novas e tesões em altíssimo grau, pronta para tomar a cidade de assalto. Sem os vícios históricos que nos acorrentou várias vezes. E com o frescor dos novos tempos!

Bandas como Sofia Pop, Splash; Artistas circenses do MACA e Los Tchatchos, Estilistas Áurea e Laura Gmea, Eventos como Os Cabarés são alguns representantes desta onda.

Ao contrário do Mate com Angu sei exatamente quem são todos os criadores do Buraco do Getúlio, que a princípio era apenas um projeto do Laboratório Cítrico, combo criativo formado por Flor Baez, Fabiano Mixo, Jimmy, BiOn!, Luana e Drica.

A Flor Baez eu conheço desde o ventre. Filha de uma grande amiga minha, Lúcia Monteiro, fui a vários dos seus aniversários de criança. E hoje, ser amigo dela é um dos grandes prêmios que a vida me contemplou.

Um dia cheguei na casa do Mozart de manhã cedo, viradaço, procurando um canto para continuar bebendo com alguns amigos e conheci o BiOn por lá fazendo dreads. Contei para ele histórias e mais histórias e ficamos amigos!

Fabiano Mixo filho da atriz Ana Márcia Mixo foi outro que vi guri que cresceu e virou parceiro de pirações artísticas. Hoje mora na Alemanha.

Fui convidado para uma entrevista para um programa do Canal Futura (pela Raísa Flor Baez e a Drica era a produtora.

Luana e Jimmy conheci por conta dos amigos ou pelo próprio Laboratório Cítrico.

E lá se vão 5 anos comemorados no Espaço Cultural Sylvio Monteiro com uma puta festa, com as bandas Spllash, Cretina, Gente Estranha no Jardim, Charanga do Caneco (banda de Peregrino, Adonis e Batata, que nasceu dentro do Buraco do Getúlio), o fanzine Lets Pense, o Dj Zé... E eu, minha gente, peguei um vôo e fui. Vi com estes olhos sagrados uma comunhão de pessoas belas ao redor de uma vitória. Cinco anos de um Cineclube que começou num bar aberto, barulhento, com algumas pessoas desligadas e outras totalmente antenadas. Mas o Buraco resistiu bravamente!

Eu vi o cineclube crescer. Não ficar sério. Mas ficar cada vez mais prazeroso e aí sim parecer mais sério. Mais comprometido. Seus organizadores não são mais os mesmos, sei que BiOn e Lua encabeçam a empreitada mas que Marcelo Peregrino (que muito fez também pelo Mate com Angu), Batata e Adonis estão no front também, Flor Baez e Abílio cuidam de outra parte importante do evento, o bar e sinto orgulho da Geração Delírio. E tenho a honra de ter – junto a Marlos Degani e Sylvio Neto – feito uma das primeiras intervenções no Buraco do Getúlio!!! Lágrimas que descem, créditos que sobem!

Sessões às terças e no primeiro sábado do mês às 19h!
Espaço Cultural Sylvio Monteiro
Rua Getúlio Vargas, 51 – Centro
Nova Iguaçu - RJ
(próximo à estação de Trem Nova Iguaçu)


O Cine Banquete

E claro que não posso deixar de falar do cineclube do Bar Banquete. Que é completamente diferente dos cineclubes citados – acima - lá do Rio. A Mostra Cineclubista e Competitiva Banquete de Curtas acontece uma vez por mês sob a curadoria de Amanda Ramos e o público escolhe a cada sessão através de votação o melhor curta da noite e seu diretor ganha um jantar no Banquete. Não há festa após as projeções mas esta competitividade torna as sessões disputadas e com um sabor peculiar.

Assisti curtas de todos os tipos numa mesma Mostra. Documentário, poesia em forma de filme, feitos com material de última geração, feitos por celular. A Mostra é democrática e os diretores levam seus amigos para a torcida deixando vibrante cada sessão. Na próxima estarei lá para torcer para o melhor curta e abraçar minha amiga Amanda!!

Toda segunda Quarta-feira do Mês as 19h
Local: Espaço Cultural Banquete / Bar e Restaurante Banquete
Endereço: Rua do Lima, nº 195, Santo Amaro, Recife.

Carnaval de 1993 - Parte I

Vivíamos toda a intensidade de uma época a flor da pele. Respirávamos poesia, nossa existência se baseava em transformar tudo o que nos cercava em mais intenso e belo. Olhávamos o mundo pelas lentes lisérgicas do verso não escrito. Da magia viva da poesia. Viver cada segundo como se fosse o mais bonito já vivido.

Eu e Jr. Blue e Alcides Eloy havíamos passado a virada do ano de 92 para 93 em Visconde de Mauá (Maromba), numa espécie de transe visceral. Ou num sonho Kurosawa. E queríamos repetir a dose de aventura lírica no carnaval. Tinha começado a namorar minha ex-esposa Josy Lozada no ano anterior e seus parentes tinham uma casa em Angra dos Reis e achamos que seria genial passar o carnaval por lá.

Levaríamos nossas barracas de camping e acamparíamos na praia dando sequência a nossa aventura iniciada no reveillon. Planejamos como planejam os românticos. Sem mapas ou bússolas. Sem dinheiro ou guias. Acreditávamos que nada poderia estragar nossa viagem. Partimos.

“Na sexta de carnaval a gente pega um ônibus. Chega à noite em Mangaratiba, acampa na Praia do Saco. De manhã cedo tem ônibus para Conceição de Jacareí. De lá pegamos outro até Angra, encontramos a Josy. Vamos para a casa de seus parentes. Montamos nossas barracas. E o resto é festa!”

Assim seria se não tivesse sido assim:

Chegamos em Mangaratiba umas 23h e fomos caminhando em direção a Praia do Saco com nossas pesadas mochilas (barracas de ferro) nas costas como se a praia fosse logo ali, não era. Depois de caminhar um pouco, descobrimos a proibição em acampar na praia. E agora? Tudo deserto onde pensávamos ter festas, lual, fogueiras, violões, bebidas, poesia. Tinha escuridão e medo. “Se vocês quiserem acampar, é com vocês mesmo, mas é perigoso!” – Disse um morador.

Voltamos para a rodoviária por segurança. Chegando lá, havia uma família “acampada” esperando o dia amanhecer também. Eu e Blue em nossa verve de “viva o momento” não nos abatemos. Jogamos nossos colchonetes no chão. Mochilas como travesseiros. E dormimos ali mesmo. Não sem antes aceitar uma vasilha de pipoca que nossos “vizinhos” nos ofereceram.

Acordamos com uma tempestade de areia. Uma ventania doida encheu a gente de areia. Meio bêbados de sono ainda acordamos assustados com nosso busão já – ali - parado indo para Conceição de Jacareí. Era muito cedo ainda. Umas 5h da matina. Chegamos em Conceição com fome e ainda cansados da noite mal dormida. Mas nada como um marzão lindo a nossa frente numa manhã quente de verão para dissipar qualquer dúvida de que nossa viagem estava apenas começando!

Ao contrário da Praia do Saco, Conceição estava tão cheia que era difícil ver areia. Porém todos dormiam ainda em suas barracas, os vestígios de que a noite havia sido boa estavam por todas as partes. Queríamos mergulhar, explorar o lugar, mas precisávamos deixar nossas mochilas em algum canto seguro e pedimos informação a um rapaz parado contemplando a manhã.

“Aê mermão, bom dia, sabe nos dizer se aqui é tranqüilo?” perguntamos ao desconhecido. “Aqui é limpeza! Vocês são lá do Monte Líbano, né? Você é o Cézar filho de Dona Mira e você é o Xande (um dos apelidos de Blue), né?” – Caralho! Estávamos há quilômetros de casa. Numa praia enorme, com milhares de barracas e justamente resolvemos parar e pedir informação a uma pessoa que nos conhecia!! E mais, ele nos informou que a barraca de Antônio Carlos (vizinho do outro lado de rua de Blue) era exatamente ali onde estávamos parados!! Muita coincidência? Sei lá. Só sei que depois de acordar Antônio, com festa, deixamos nossas mochilas ali e fomos explorar a praia.

Atravessamos a parede de pedra que separa Conceição de Jacareí de Garatucaia e curtimos aquela praia cheia de casarões, toda organizada, mansões e limpeza contrastando com o clima povão de Conceição. Tomamos umas cervas por lá, mas decidimos almoçar onde era mais a nossa cara e o nosso bolso. Com a galera de CDJ. Depois do almoço, resolvemos ir tomar um banho e pegar o ônibus para Angra. Chegar lá bonitinho e cedo, para encontrar a Josy, armar nossas barracas e curtir a noite.

No caminho da rodoviária onde iríamos tomar nosso banho, passamos em frente a um trailer que tocava alto Down Under de Men at Work e começamos a dançar, com toalhinha nas costas, sabonete na mão e como o som era bom resolvemos parar para uma cerveja. O dono nos mostrou sua coleção de vinil que ficava embaixo do balcão e ficamos ali escolhendo discos e músicas e ele colocando. Apresentou-nos um amigo músico chamado Alexandre e deixamos o tempo passar curtindo aquela onda.

Alexandre nos lembrou que o último ônibus para Angra sairia às 17h o que nos fez correr para o banho. Mas fomos convencidos antes, conhecer a cachoeira. Ficamos lá tomando banho gelado em comunhão total com a natureza e quando fomos ver estava em cima da hora do ônibus partir. Resumindo: pegamos o bus ainda molhados, porém felizes como pinto no lixo e fomos de Conceição até Angra declamando poemas no ônibus sobre aplausos, vaias e curtições do coletivo lotado e em fim chegamos a Angra dos Reis.

Continua...

DMV – Eu Canto Samba - Paulinho da Viola

Quem não gosta de samba, bom sujeito não é; é ruim da cabeça ou doente do pé. Virou clichê, mas é a mais pura verdade. Pode alguém não gostar de samba? Pode. Eu. Quer dizer, não gostava. Isso mesmo. Aliás, detestava. Achava que tudo era pagode daquela época de 20 anos atrás de Raça Negra, Salgadinho, SPC e lixos congêneres, tais como os de hoje do tipo Belo, Exalta Samba e outras sensações. Misturava tudo num esgoto só. Desconhecia o que era (é) samba e o que era (é) dejeto.

Mas como sou um cara sortudo e caras sortudos têm bons amigos, Marco Crioulo apresentou o mundo do samba para esta alma ignóbil e preconceituosa. Soube fazê-lo de mansinho, agüentando meus comentários maliciosos e tendo aquela paciência de Jó. Fui observando o que era joio, o que era trigo e aprendendo a reeducar o meu ouvido até então exclusivamente mpbista (já, de certa forma, ambientado ao samba, mesmo que eu ainda não soubesse).

O DMV desta quinzena versa sobre um dos discos que representam um dos maiores legados da música brasileira. É um do tipo que ultrapassa a música, que já nasce clássico e que entra para a história do país: Eu Canto Samba, de Paulinho da Viola, LP/BMG Discos, 1989, produzido pelo próprio.

Um disco, entretanto, por si só, não tem a força necessária para já nascer clássico; depende, além dele, de uma série de circunstâncias e contextos. Mas, ao mesmo tempo, ter a força, a pujança de obra-prima é fundamental, é condição sine qua non. É um delicioso e instigante paradoxo. Eu Canto Samba é lançado após um hiato de cinco anos (o último disco de Paulinho fora o Prisma Luminoso de 1983), fato que nunca havia ocorrido antes em sua (dele) carreira, pois o intervalo entre um e outro trabalho até então fora de no máximo dois anos desde 1965 em sua estréia com o conjunto Rosa de Ouro.

Muitos de nós temos aquela imagem mansa de Paulinho. Fato que, definitivamente, tem a ver com a sua elegância e extrema polidez e nada a ver, saibam os desinformados, com a mansidão pejorativa dos covardes. Paulinho sempre foi voz corajosa e já em 1975 registrou seu elegante incômodo contra o que achava uma, digamos assim, perigosa descaracterização do samba quando compôs Argumento, no disco Paulinho da Viola daquele ano. Muita gente vestiu a carapuça na época, mas o recado não foi endereçado especificamente para ninguém.

Na canção homônima que abre e fecha o disco Eu Canto Samba, Paulinho volta a entoar sua voz inconformada, mas de uma inconformação que, mesmo que direta e objetiva, nos remete aos melhores momentos do samba e da alegria que ele proporciona. Ele diz assim: “Há muito tempo que eu escuto esse papo furado dizendo que o samba acabou. Só se foi quando o dia clareou”. Genial. Este recado do Paulinho tem muito a ver com aquela fase dos cinco anos sem gravar que comentei acima. Nesse período o Brasil vivia a explosão do rock nacional depois do primeiro Rock in Rio em 1985 e também das bandas da New Wave. Michael Jackson espantava o mundo com Thriller. O Queen completava 300 milhões de discos. Sunday Bloody Sunday fazia o U2 decolar. Por aqui, tempos difíceis para o samba.

Lapa em plena decadência. Fim de regime militar. Rock, rebeldia e atitude combinavam bem. Mas não foi essa a motivação para a bronca do Paulinho. Ele é maior do que isso. A inconformidade veio da questão de que algumas pessoas, diante deste cenário desanimador, pareciam acreditar na morte do samba e, da mesma forma, passaram a ignorar o surgimento de nomes como o de Zeca Pagodinho (que havia lançado o seu primeiro LP em 1986) e o do Grupo Fundo de Quintal (na ativa desde 1980), para ficar em dois exemplos, além, da própria força imensurável e sempre presente das escolas de samba nas comunidades do Rio de Janeiro, junto de todas as castas de sambistas que sempre giraram no entorno delas. E hoje em dia o samba está por aí, forte e sarado. Quem tinha razão?

O disco conta com uma capa do Elifas Andreato que é o retrato de uma simplicidade proposital: o recosto do compositor na árvore e um cavaquinho ao lado: o samba em si. Eu Canto Samba segue com pérolas do tipo Um Caso Perdido e Fulaninha, onde Paulinho chega a parecer o romântico ingênuo e puro ao desejar a musa nem tão pura assim no primeiro caso e a sonhar com a Fulana, no segundo. Mas não é ingenuidade. É sublimação em relação ao mundo cruel, à realidade brusca: um não-tô-nem-aí com terno de linho branco, chapéu panamá e buquê de flores na mão. Mas o disco tem samba da pesada também: Quando Bate Uma Saudade, Pintou Um Bode e a faixa–título Eu Canto Samba dizem tudo. Outros destaques: O Tímido e o Manequim e Com Lealdade, lindas canções.

É um disco de Paulinho afiado. No coração e na viola.

Se não ouviu, ouça. Se não sambou, sambe. Se não amou, ame.

Salta uma Brahma aê, Raymundo!

Para baixar o disco Eu Canto Samba de Paulinho da Viola click aqui:

Marlos Degani é poeta e cronista do sítio Baixada Fácil, para acompanhar suas andanças pelo mundo virtual é só procurá-lo num desses endereços:

O poeta está no My Space http://www.myspace.com/marlosdegani
O poeta está no YouTube http://www.youtube.com (digitar Marlos Degani)
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O poeta está no Baixada Fácil
O poeta está no Twitter @MarlosDegani