quinta-feira, 5 de maio de 2011

MEU POVO: ANTÔNIO FRAGA

Existem algumas coisas em nossas vidas que a gente não consegue esquecer, não sabemos se é porque estamos ligados pelo sentido da arte ou se é porque simplesmente algumas pessoas sacodem nossas vidas ao ponto de influenciar em nossas personalidades. Geralmente durante as nossas vidas não conhecemos ninguém que seja inferior nem superior. Alguns sabem sobre um certo assunto e outros têm um assunto certo. E assim serão todos, por não serem iguais.

Uns são teóricos, outros são práticos, uns são filosóficos e outros nem querem saber o que são. Mas, em questão de simplicidade poucos são os que conhecemos.

Uma das simplicidades notórias que conhecemos em Nova Iguaçu, que chamava a atenção, foi o escritor, poliglota, dramaturgo, matemático, artista plástico, contista, cronista, poeta, romancista, tradutor, intelectual, malandro do mangue nas décadas de 30/40 e grande aventureiro, Antônio Fraga.

Ele contava que conheceu a sua primeira e única esposa, com a qual teve seis filhos, Therezinha Manga Fernandes, quando ela era ainda menor de idade e já audaciosa, pois fugiu pela janela de seu quarto para morar com Fraga num quartinho, emprestado, na casa de amigos. Contava também, que às vezes não tinham nada em casa para comer, mas quando estavam com dinheiro, freqüentavam os melhores lugares da cidade e ainda convidavam os amigos. Em 1963 os dois acabaram vindo pra Queimados.

Antônio Fraga contou-nos também, que certa vez traduziu o livro O Super-macho de Alfred Jarry e depois o poeta Paulo Leminski acabou ficando com o copyright da tradução.

Fraga escreveu um romance em 1942 chamado Desabrigo, foi publicado em 1945, e foi o primeiro livro em gíria publicado. Essa obra foi elogiada por: Oswald de Andrade, João Antônio, Antônio Callado, Edino Krieger, José Louzeiro, Moacir Félix, Celso Cunha, entre outros. Fraga morou na casa de Djanira, foi amigo de Pancetti e Vinícius de Moraes. Publicou em 1978 o poema dramático "Moinho e", escrito em 1957 e que ele sempre teve a esperança de vê-lo encenado.

Voltando à simplicidade, o que queremos dizer é que não entendemos como um escritor de tanto valor como o Fraga possa ficar tão esquecido. Olha que são 30 anos de Baixada! Que a Baixada junto com ele foi capa do Caderno B do Jornal do Brasil em 12 de novembro de 1985. Está lá em letras grandes: "Localizado na Baixada o autor que Oswald comparou a Guimarães Rosa e Clarice Lispector".

É triste ver que a literatura daqui não tenha significado para a maioria. É triste saber que uma pessoa leva uma vida inteira lutando para transformar a vida dos outros numa maneira inteligente de absorver o que é bom e o que é descomplicado, e não seja entendido. Talvez por isso Fraga tenha levado o título de "escritor maldito", por ser tão maldito quanto o local que escolheu para morar em definitivo.

A Baixada tem 3 milhões de habitantes e com isso a capacidade de influenciar política e economicamente em todo o Estado e no Brasil. Será que as pessoas ainda não se deram conta de que parte da história está aqui dentro? Ou será que iremos sempre a reboque?

Não vamos deixar nossos valores esquecidos, vamos levá-los para as salas de aula, para as ruas e estufar o peito dizendo: - Eu conheço a cultura do meu lugar.
Que Antônio Fraga possa ser tombado além do túmulo onde jaz desde 19 de setembro de 1993 e que sirva como marco da riqueza cultural da Baixada.

Moduan Matus, 20 de março de 1995

Texto publicado originalmente no livro Um Olhar pelas Janelas da Baixada, Moduan Matus – 2000


FRAGA E EU

Nunca havia visto Moduan chorar. Mas naquele dia no Pelezinho ele debruçou-se na parede da rodoviária (onde ficava o café Pelé) e chorou de soluçar. Juro que fiquei impressionado por não saber da importância que Antônio Fraga tinha, não só para ele, mas para todo o mundo.

Tive dois contatos com o Fraga em minha vida. Uma, quando o mesmo Moduan organizou um Encontro com a Poesia na extinta Casa de Cultura de Nova Iguaçu. Depois de vários poemas declamados por vários poetas fui para a varanda da casa e fiquei ali, namorando comportadamente minha namorada. Antônio Fraga saiu, não me conhecia, mas disse uma frase emblemática para mim: “Isso aí que vocês estão fazendo é poesia, lá dentro é só conversa fiada”.

Nunca vou esquecer-me disso. Primeiro porque nem sabia quem era aquele senhor, em seu impecável terno e gravata, que ia embora e fora tão crítico a tudo que eu acreditava na época. E segundo por ter entendido muito mais sobre poesia depois de sua sentença. A poesia não precisa de palavras, de construção, mas sim de paixão!

A segunda vez, já sabendo de sua importância, Moduan me apresentou numa exposição do projeto Arte na Caixa, organizado por outro Antônio, o Filipak, onde um artista-plástico o retratara. Mas Antônio Fraga não havia gostado nada de seu quadro. Vaidoso, em ocasiões sociais estava sempre de terno e com cabelos penteadíssimo, o artista – sem saber – escolheu uma foto para referência onde Fraga estava com barba por fazer e descabelado.

Fomos beber no bar em frente e ali pude conversar um pouco com ele. Lembro-me que Fraga acendia um cigarro no outro ininterruptamente. Isso me impressionou na ocasião.

Nesta época eu estava escrevendo um livro chamado A Verdadeira História de Ernesto Jatobá. A história de um malandro carioca, onde abusava da liberdade da escrita. Capítulos pequenos. Às vezes uma só frase. Outras, um poema. Mas não havia lido ainda o clássico de Antônio Fraga: Desabrigo. E anos depois ao lê-lo, descobri que, sem querer, eu havia chupado muito do livro. Existem muitas coincidências entre os dois personagens. Claro que não comparo minha obra ao Desabrigo, mas me causou surpresa absoluta. Em outra oportunidade falarei do Desabrigo aqui no Zarayland.

A Prefeitura Municipal de Nova Iguaçu, através da Secretaria Municipal de Cultura lançou o Fundo Municipal de Cultura Escritor Antônio Fraga que contempla diversos projetos culturais criados e produzidos por sua população. Tirando muitos livros das gavetas, dando voz à músicos, palco à atores e diretores, telas à cineastas e pintores entre outras manifestações artísticas. Um pouco de justiça ao nome que tanto contribuiu para a cultura.

Cézar Ray

Cézar Ray é este maluco que vos escreve.

5 comentários:

Denise disse...

Cobrinha entrou no buteco e botando dois tista no balcão pediu pro coisa

– Dois de gozo

Coisada atendeu à la minuta Largou no copo talagada e pico de água-que-passarinho-não-topa e sem tirar a botuca da cara do cobrinha empurrou o getulinho

– Tou promovendo a bicada

Depois de enrustir o Nicolau e derramar gole pro santo cobrinha mandou o lubrificante guela abaixo Já o desguiava quando pulga mordeu ele atrás da orelha e ele falou pra dentro “Quero ser mico catar bagana e coisa e loisa se nessa coisa do coisa não tem coisa” Então voltou e falou pra fora

– Promovendo por que?

– Acertei um totó no veado…

– Que tem isso com o peixe?

– Por causa do mano

fez coisada que patolando um jornal mostrou pro cobra

Começa assim, de forma desconcertante, o livro “Desabrigo”, escrita por Antonio Fraga em 1942

Eu gostei muito de "Ernesto Jatobá "to curiosa pra ler "Desabrigo"

Denise disse...

Acabei de ler Desabrigo e fiquei impressionada, pois apesar de ser feito antes de “ Ernesto Jatobá” eu conheci Ernesto antes e o que me deixa mais orgulhosa é saber que você também.
Você é um artista de Nova Iguaçu, você é parte dessa história.
Te amo.

Vanessa Rodrigues disse...

Não conhecia Fraga até ler no seu blog. Presentaço!

Simpatizei com Desabrigo desde a dedicatória: "Para mim mesmo, com muita estima."

Achei um link que disponibiliza a novela "Desabrigo" em pdf, para quem quiser se aventurar:

http://www0.rio.rj.gov.br/arquivo/pdf/biblioteca_carioca_pdf/desabrigo.pdf

Já nesse outro link, um estudo (artigo) sobre a novela:

http://revistas.ucg.br/index.php/estudos/article/viewFile/323/263

Continuo à procura do poema "Moinho E" (1957).

Vanessa Rodrigues disse...

http://www0.rio.rj.gov.br/arquivo
/pdf/biblioteca_carioca_pdf/
desabrigo.pdf

http://revistas.ucg.br/index.php
/estudos/article/viewFile/323/263

Os links não saíram direito..

Oa, tais me devento Jatobá.

Beijo!

Marcos disse...

pra não dizer que não falei dos cactus: batalhei pra q o fundo tivesse o nome do Fraga, qdo fiz parte do conselho de cultura de 9Iguaçu, depois que montei desabrigo no teatro. Sei lá... era o minimo, sacou?!