terça-feira, 7 de junho de 2011

Cadê Denise?

Fernando ficou feliz ficando fiado, fechou a porta da casa. Ficou feliz por rever Renata. Conheceu-a num Reveillon. Na casa de praia em Parati de uma amiga da época da Escola. Estela era o nome dela. Estela tinha um irmão mais novo. O nome dele era Caio. Cabiam numa mão as qualidades de Caio: era o caçula, metido a capeta, cabra cabreiro, estilo caveirinha e cabeça dura feita cascalho. Caio caiu num buraco. Do buraco em que estava Caio pensava. Na época em que passava essas temporadas na casa da praia. Lembrou que nunca mais encontrara as melhores amigas da irmã Estela. Caio caiu de amores por uma delas. Do buraco onde estava, Caio caído de amores como há anos atrás lembrou dos cabelos dourados daquela amiga de Estela. Às vezes, a memória brincava de apagar o nome dela. Mas do buraco onde estava Caiu soltou alucinado, o apelo que lhe apertara por tantos anos o peito, qual um urso urrando, soltou o grito: Cadê Denise?

Geórgia Alves

Geórgia Alves é surpresa nossa. Apareceu no primeiro EnContos sem saber exatamente o que seria. Acho que se apaixonou assim como é apaixonante como artista e mulher. Contista, poeta, cineasta aqui de Pernambuco nem sendo daqui.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

EDIÇÃO 9

Queridos leitores, viajei para o Rio e para São Paulo na última semana e não atualizei o Zarayland. Vi minhas filhas minha mãe minhas irmãs amigos. Fiz todo um projeto das coisas que queria fazer. Não fui no Chá de Fraldas da Fi e do Celinho. Não fui na peça da Josi e da Soninha (Contos Africanos). Não fui no show do Robson Luy e da Charanga do Caneco. Não fui conhecer Gabriel, fruto de Claudio Lyra e Mari. Mas vi minhas meninas!

Zarayland nove ficou assim:

Começo dando uma geral no II EnContos que rolou dia 18 de maio lá no Banquete.

Depois falo de uma das coisas que queria fazer no Rio e fiz: ir ao show do Caô de Raiz.

Coluna Meu Povo veio para ficar e desta vez conto meu caso de amor com Moduan Matus.

Resenho o novo e delicioso livro de Victor Loureiro – Perímetro Humano.

Falo um cadinho da Oficina Brennand um lugar do outro mundo bem aqui pertinho de mim.

Um queijo um beijo e um beliscão de caranguejo!

O II EnContos vs PE

A segunda edição do EnContos vs PE Cadê Denise, foi muito comentada e aguardada. O “Cadê Denise?” está quase virando gíria entre os amigos do EnContos. A própria Denise já está sendo identificada como: “Você é a Cadê Denise, né?”.
Responderam por onde ela anda: Eu (Cézar Ray), Ela (Denise Dantas), Bruno Piffardini, VanSan, Danúbia Oliveira, Lúcia Moura, Gerusa Leal, Rô Gonzaga, Raimundo de Moraes e Geórgia Alves (Pernambuco); Sil, Odervan Santiago e Gelson Amaral (Rio de Janeiro), fiz um jornal com oito páginas que deixarei em PDF aqui para quem quiser baixar. Não publicarei mais todos os contos aqui no Zarayland, publicarei no blog do EnContos.

Fizemos alguns “ouvintes” lerem contos dos que não puderam comparecer. Sendo assim, Cabeça (Rafael Sete) leu o conto de Sil, Thiago Guerra leu o conto de Odervan Santiago, Kaio Friederich leu o conto de Seu Gelson. Lúcia Moura que leu o seu fantástico e “sem respirar” conto representou também Gerusa Leal que infelizmente não pode nos brindar com sua presença. O compositor Daniel Guerra (do Rio) também prestigiou o evento e fez uma composição de improviso para o tema.

Mas uma vez o EnContos foi surpreendente e delicioso. A literatura, o bom humor e o reencontro fizeram aquelas poucas horas esbarrarem nas portas aveludadas da felicidade.

No mais é o seguinte, a família EnContos cresce e está aberta a temporada da próxima edição. Tema sugerido por Bruno Piffardini: “O que acontece em Governador Valadares, fica em Governador Valadares.” Mãos a obra meninos, sem demora!


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SHOW DO CAÔ DE RAIZ

Cheguei ao Rio na sexta com a intenção de ver o show de retorno do Caô de Raiz no Severyna de Laranjeiras. E valeu cada esforço para chegar lá. Na companhia de Denise Dantas, Ana e Marinaldo Imperiano, Cesinha Renato e Kátia, fomos os primeiros a chegar ao bar e meio que bateu aquela preocupação: Vai rolar público?

Dúvida dissipada pouco antes do show, quando um público dos mais bonitos que já vi, decorou o segundo piso da casa como enfeite de flor em cabelo de morena lua. Revi camaradas como Jamaica, Dandan, Bob Pai, Edhu Percussa, Julio Braga, Marcelo Mesquita, Penna Firme e Maria Elisa!

A banda está afiadíssima e as participações especiais foram perfeitas, pois fizeram a ponte entre o antigo Caô (com a emocionante participação de Jamaica) e a novíssima indumentária da banda (com empolgante participação de Penna Firme). Fiquei ainda, particularmente feliz em ver a logomarca que criei para o projeto Radio Rua, de pano de fundo no palco!

O que me preocupava também, era com as novas roupagens das antigas músicas. Já que somente Roger Hitz permanece da primeira formação, mas surpresa boa perceber que o som da banda está até com mais unidade que as versões do primeiro disco. Claro que senti falta da flauta de Wolverine e de uma coisinha aqui e outra ali. Mas a banda está cheia de personalidade!

“Capeta de Buceta” música nova foi a grande sensação do show, provando que o Caô ainda tem muita lenha para queimar e que músicas antigas funcionam muito bem, porém apenas como parte de um corpo bem resolvido. Composto por músculos bem definidos das novas composições.

Mas o que me deixou muito orgulhoso foi ver meu irmão Roger Hitz mostrando a cada dia o que é superação! Vida longa ao Caô de Raiz!

MEU POVO: MODUAN MATUS

Moduan Matus é história e memória. E tem tanta coisa para falar sobre este poeta que é tarefa hercúlea saber por onde começar. Vamos pelo começo.

Certa feita ia eu para o trabalho, ainda cedo, muito cedo. Lojas fechadas. Se não era inverno, é assim que me lembro. Frio. Encolhimento. Ano, 91. Desci do Brasinha (empresa de ônibus) e fui andando em direção ao Calçadão. Tinha 20 anos. E mil idéias na cabeça. Mas achava tudo, muito parado na cidade dormitório. Não conhecia ninguém, não sabia de nada que a fizesse despertar!

Quando pisei no Calçadão, vi alguns transeuntes sonolentos parados em frente a Lubene, lendo alguma coisa nas portas de ferro da loja ainda fechada. Curioso fui ler também. Era um poema. Escrito a giz de colégio. Duas frases apenas: “O TRABALHO ENOBRECE O HOMEM / PARA O QUAL ESTAMOS TRABALHANDO – MODUAN MATUS (CACO DE VIDRO)”.

Assim foi meu primeiro contato com a poesia iguaçuana. Com aquilo no coco, confuso, animado como quando ouvi uma banda punk pela primeira vez, pensando: o que é isso??? Surpreendi-me novamente entrando na Travessa Rosinda Martins. Mais poemas, mais poetas decoravam as portas das lojas. Era o grupo Caco de Vidro. Capitaneado por Moduan Matus e composto por Dejair Esteves, Idicampos, J.A. Lima e André Alasf. Era quase um sonho acordado.

Foi a partir desta informção que me empolguei meses depois para criar o Desmaio Públiko.

Acompanhei de longe a movimentação do Caco de Vidro. Vi algumas apresentações. Observava sempre anônimo Moduan Matus e a trupe com olhar de fã platônico. Eu e Eud Pestana queríamos muito conhecer o poeta, mas nossa timidez não nos permitia. Até um dia, no Daniels Bar, com a desculpa de mostrar alguns poemas do Pestana, falei com Moduan pela primeira vez. Trêmulo como quem encontra seu ídolo saí de lá sorrindo e emocionado.

Meses depois com o lançamento do Desmaio Públiko consolidamos de vez esta amizade que este ano já faz 20 anos.

Com Moduan criei o projeto COBAIA para lançamento de livros alternativos (Poemas de Fim de Milênio, Os Fios Estão em Todas as Partes – Moduan Matus; Ad Nutum – Marlos Degani, Presente – Alcides Eloy e Poemas Sujos de Um Velho – Lobo foram os títulos lançados), organizamos Encontros com a Poesia, Roda de Leituras, SPI (Sociedade dos Poetas Íntimos) entre outras empreitadas culturais. Passamos a nos ver quase todas as noites, onde tive o privilégio de ouvir as histórias sobre minha querida cidade, movimentos políticos e culturais que aconteciam quando eu ainda era semente.

Moduan me enriqueceu com informações, idéias, tesões, visões e sobretudo com muita poesia. Tive a honra de ajudá-lo e incentivá-lo a lançar seu livro VERMELHO (o seu primeiro feito em gráfica de fato) e acompanhar todo o processo, além de fazer a capa e escrever um dos prefácios.

Possui o maior acervo literário de títulos lançados por autores de Nova Iguaçu. É o maior colecionador do fanzine Desmaio Públiko, creio eu, o único que possui todas as edições! Dá até raiva!!!

Moduan Matus é referência na literatura e na cultura iguaçuana. Moduan é referência em minha vida e em muitas das coisas que faço. E para ele eu faço reverência!

Livros de Poemas:
1980 – “Poemas Concretos”, em parceria com Dejair Esteves.
1981 – “Pedacinhos de substâncias essenciais a vida", em parceria com Dejair Esteves
1982 – “Poesia Baixadense”
1983 – “Chama amar te amar” – Poesia mulher.
1992 – “Lirian Tabosa versus Moduan Matus.
1992 – “Poemas de final de milênio”
1994 – “Os fios estão em todas as partes”
1996 – “Vermelho: um século de poesia”,
2004 – “Acepões do amor”
2008 – “Aforismos afloram”
2008 – “Signos – Poemas instalações”
2011 – “Quintais Tropicais – Livro de Hai-kais” (pronto para lançar)
2011 – “A Pá Lavra – Poemas visuais” (pronto para lançar)

Livros de contos e/ou crônicas
2000 – “Um olhar pelas janelas da Baixada Fluminense”
2006 – “As margaridas estão cada vez mais raras”.

PERÍMETRO HUMANO – Victor Loureiro

Não sou crítico literário e nem mesmo um bom escritor ou poeta. Escrevo muito mais pelo sentimento e gostaria muito escrever bem como alguns amigos meus, que para mim, são escritores e poetas de verdade. Um deles é Victor Loureiro. Degani e Cardozo outros dois...

Acompanhei via Facebook o lançamento do novo livro de Victor – Perímetro Humano – e invejei vários amigos que puderam comparecer na livraria da Travessa no dia 28 de abril. Fui ao Rio na semana passada e tentei comprar um livro com a Soninha no escritório da Água Grande, produtora de Nelson Freitas, mas infelizmente ela ainda não sabia o preço e saí de lá com as mãos abanando.

Não encontrei o Victor nesta viagem, mas encontrei o André Luz que gentilmente me emprestou seu exemplar para eu trazer a Recife e degustá-lo com a calma que a poesia pede. Não fiquei surpreso com a qualidade dos poemas, pois já conheço o poeta há tempos e sei do que sua pena é capaz de fazer comigo.

Perímetro Humano é um livro verde. Ainda que a capa seja azul. Não verde oposto de maduro. Verde porque 80% dos poemas - em suas três partes – exulta a natureza de alguma forma. Do primeiro poema Hálux (a parte IV é uma obra prima do ritmo e da beleza, mayakoviskiana: comovente!) ao último A(u)tor, Victor trafega entre florestas, quintais, jardins, musas e pelo seu universo interior.

“Crônica” é um poema inusitado, divertido e que dança ao som do canto do galo. Poema que dá vontade de decorar para declamar por aí. Aliás vários poemas dão esta vontade. “Elizabeth” lembra alguma coisa de Moinho E, raro poema/livro de Antônio Fraga.

Victor Loureiro não é poeta posudo, pelo contrário, seus poemas são muito bem escritos, porém simples e digeríveis. Há hora de emocionar e há hora de gargalhar como em “Inverno aos 50” onde consigo ouvir a voz do Victor reclamando do frio, show. Um livro rápido, direto e que desce redondinho como uma cerveja gelada num dia quente de verão. Bravo poeta. Obrigado André Luz!

OFICINA BRENNAND

Quem já veio me visitar em Recife com calma sabe muito bem de um lugar que não deixo ninguém sair sem conhecer. A Oficina Brennand. Para mim, um dos lugares mais fascinantes do mundo. Para chegar lá, já é uma viagem. Uma estradinha de terra dentro da mata atlântica no bairro da Várzea a beira do Capibaribe.

A Oficina é uma obra viva de Francisco Brennand – não é difícil encontrá-lo caminhando pelos seus pátios. A olaria São João, herdada de seu pai, foi transformada em museu, centro cultural, instalação, ateliê, auto-retrato, cartão postal, ponto turístico, é viva e mutante e a cada visita (e foram muitas) tem sempre algo diferente. O que não muda é a magia do lugar.

A obra de Brennand é diversa. Do mitológico ao dia-a-dia, do sacro ao erotismo, de paisagens ao cubismo. Escultura, literatura, pintura, gravura e ovos. Muitos ovos. Muitos falos e conas. Serpentes e Deuses.

Um lugar incomparável, não só em Pernambuco como no planeta. Quando entro lá sou transportado para um mundo, hora abissal, sombrio e até claustrofóbico. Hora ensolarado, florido e arejado. Não me canso de ser surpreendido por seus encantos.
para conhecer. Elas estavam completamente absorvidas pelas obras quando de repente eu vejo o mestre. Fui até ele que se mostrou muito gentil e simpático, apresentei minhas filhas e tal. Antes de me despedir ele ainda me deu o toque: “Não vai fotografar?”. Não queria incomodar.

Se você é de Recife e não conhece, tá esperando o que? Se você é de fora e vier até aqui, precisa conhecer. E se for por falta de companhia, me chame que vou de novo e de novo de novo...

Oficina Brennand
Propriedade Santos Cosme e Damião
Várzea - Recife

terça-feira, 17 de maio de 2011

Edição Oi,Tô (Gripado!)

Gripe as vésperas de ir para o Rio. Preciso melhorar rápido! Daniel Guerra me visita aqui em Recife, amanhã rola EnCONTOS CADÊ DENISE no Banquete. Preciso melhorar rápido! A edição OITO ficou assim:

AGENDA ZARAYLAND – Espaço para divulgar eventos bacanudos pelo mundo. Por hora ficarei nos endereços de Recife e do Rio, mas quem sabe onde meu passaporte pode me levar?

MEU POVO – A Coluna volta desta vez com o poeta EUD PESTANA. Meu guru, amigo, compadre, sócio, irmão, ídolo e mais um pouquinho que nem consegui escrever.

O NÓS PÓS – Falo um pouco do grupo de poetas e artistas aqui de Recife Nós Pós, ou de como conheci eles, ou só mais um dos capítulos de minha história aqui em Recife. Leia e decida você!

“Atchimmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm!!”

DE ALGUNS POETAS DA TERRA DA LARANJA – Filme de TIGU GUIMARÃES feito há uns anos em homenagem aos poetas de Nova Iguaçu.

DMV (DISCOS DA MINHA VIDA) – Inauguro a coluna assinado por MARLOS DEGANI para o Zarayland, nos contando um pouco sobre os discos que mudaram sua vida. Nova experiência aqui no blog com um colunista fixo. Comentem please.

Preciso melhorar rápido!!!!!

Um beijo um queijo e um beliscão de caranguejo!!!

AGENDA ZARAYLAND

II EDIÇÃO DO EnCONTOS vc PE – Cadê Denise?
Amanhã dia 18 de maio de 2011, acontecerá no Banquete a segunda edição do EnContos versão PE, as 19h. O tema dos contos será CADÊ DENISE? Quem quiser chegar para ouvir as histórias que surgiram do tema proposto, será bem vindo. Quem quiser escrever ainda e ler amanhã, não perca tempo!

Bar e restaurante Banquete
Rua do Lima, 195 – Santo Amaro – Recife
(ao lado da Igreja e em frente à TV Jornal)
Telefone: (81) 3423.9427


SHOW DA BANDA CAÔ DE RAIZ
Sexta-feira dia 20 de maio de 2011 vai rolar show do Caô de Raiz no Severyna de Laranjeiras a partir das 21h. A banda que está com seu novo disco quase pronto fará um show para sacramentar a volta depois de alguns anos fora da ativa. Com participação de Penna Firme e abertura dos Djs do Power Trio Carnavalha a noite promete! Quem tiver no Rio não pode faltar!

Severyna de Laranjeiras
Rua Ipiranga, 54 – Laranjeiras – Rio de Janeiro
Telefone: (21) 2556.9398

Meu Povo: Eud Pestana

Em 1987 comecei a trabalhar na Ebony (atual Embelleze) no Departamento de Artes como auxiliar de fotolito. Nem sabia o que era fotolito, mas era um trabalho dentro de um departamento do qual queria fazer parte. Lembro-me perfeitamente do meu primeiro dia. Um medo misturado com timidez com desconforto com todos os conflitos e inseguranças dos meus dezesseis anos.

Ali naquela sala me tornei adulto. E um adulto bacana - e agradeço muito aos meus colegas - mas diretamente a uma pessoa: Eud Pestana. Trago um pouco de cada um que trabalhou comigo naqueles primeiros anos. E minha história, quem sou, o que ainda vou fazer da minha vida, como vocês me conhecem devo a amizade com o Vavá (para os íntimos) e com aquele grupo fantástico formado por Miro, Thomaz, Luizmar (Cabeça) e Robertinho.

A doçura e sensibilidade de Eud Pestana me contaminaram. Sua forma de olhar o mundo, pelas lentes da poesia, me fez enxergar um mundo melhor. Eud é incapaz de ser rude com alguém. É compreensivo ao extremo e para tirá-lo do sério é muito difícil. Mas é tarefa que ninguém almeja. Queremos, quando o conhecemos, amá-lo.

Poeta de pena ágil e leve. Lírico, com rimas inusitadas, muitas vezes sacaninha, Eud Pestana é um poeta de elevadíssimo quilate, desses que dá vontade de ler sem parar. Ele me fez entender a possibilidade do poema. Quando eu achava a poesia uma coisa chata ele me mostrou que ela podia ser um brinquedo. O lúdico sonho possível.

Toda sexta, confeccionávamos bottons para homenagear um poeta. Cortávamos papel Paraná, colávamos uma imagem e Eud pintava um texto/homenagem como: Viva Quintana, Salve Bandeira e por aí ia. Depois começamos a ler poemas no fim do expediente inaugurando o que chamávamos de Sexta-poética!

Foi numa sexta-feira dessas que criamos o Desmaio Públiko, mas aí já é outra história. E com o Desmaio Públiko comecei a publicar meus primeiros poemas, sempre sob o crivo de meu mestre e guru Eud Pestana!

Namorei muito dentro de seu fusca “Geocondo” quando docemente ele dava uma de motorista para mim e minha namorada: “Para vocês ficarem mais a vontade”, ele ia na frente sozinho e eu e ela lá atrás...

O mundo precisa conhecer os poemas e o poeta Eud. Por isso exijo um livro já!
Queria ter 10% do talento de Eud Pestana e que o mundo tivesse apenas 1% de sua doçura. Pois com isso já seria um lugar bem mais bonito para se viver!
Evoé Poeta!

GOIABA-SAPOTI

Goiaba madura
atrai pintassilgos

sapoti noturno
atrai morcegos

 tua boca vermelha,
molhada de centelha

atrai meu vexame
de abelhas

fominhas de beijo.


O Nós Pós

Certa noite duma sexta-feira, nos primeiros meses aqui em Recife, fiquei em casa bebendo umas cervejas esperando o Bar Garagem abrir (ele só abria depois da meia-noite) e era difícil ficar acordado até a meia-noite, pois aqui escurece bem mais cedo, as pessoas dormem mais cedo e não conhecia ainda outros bares e nem tinha amigos com quem pudesse ficar conversando vendo a hora passar.

Denise havia desistido de ir comigo, vencida pelo cansaço e pelo sono. Fiquei então colocando música, bebendo e olhando a hora de minuto em minuto.

Meia-noite peguei um taxi e me mandei para lá. Tive que esperar ainda até as 2h quando Nilson (dono do bar) resolveu abrir. Eu e uma matilha esperávamos no posto de gasolina consumindo latinhas e conversando. Mas quando abriu o bar, cada um foi para o seu lado, cuidar de seus interesses.

Como não conhecia ninguém, fiquei nos banquinhos do balcão do bar ouvindo o som que Nilson colocava e tentando – muitas vezes em vão – puxar papo com o nem sempre simpático faz tudo e proprietário da casa.

Cansado de conversar com minha cerveja, peguei mais uma e fui lá para fora olhar as pessoas. Mas ficar segurando uma garrafa na mão (lá só vendia garrafa de 600ml) e um copo na outra e ainda querer fumar não era uma das mais confortáveis situações. Pedi então para apoiar minha cerva na mesa de uma galerinha que foi muito simpática e me convidou para sentar.

Estava no Nós Pós.

Contando que era novo em Recife, que era poeta e tal, me comunicaram que tinham um grupo de poesia, que faziam apresentações, que tinham um fanzine e pediram para eu esperar para conhecer Alexandre. Um guerreiro hasteando a bandeira da resistência e da poesia. Convidou-me para participar da próxima edição do Nós Pós no Burburinho o que aceitei de imediato. Ficamos bebendo e conversando até umas 9 horas da manhã.

O Nós Pós no Burburinho foi dez. Era a primeira vez que eu ia no bar e já gostei de cara de lá. Vi os poetas sentados juntos numa mesona (como acontecia comigo e com meus comparsas do Desmaio em Nova Iguaçu), vi um poeta novinho com rabo de cavalo, todo de preto que disse logo: “Olha o meu filho ali”. Poetas com forte teor político. Poetas com tão sensíveis que pareciam pétalas de rosas. Poetas performáticos. Enfim, poetas para todos os gostos. E acho que gostaram de mim também.

Meses depois no aniversário de 1 ano do grupo fui novamente convidado a declamar, desta vez, na livraria Cultura. Vinha de um churrasco e já cheguei trêbado. Esqueci um poema no meio (Sídrome de Sandrinhoooo) e me justifiquei: “Gente, eu estava num churrasco!” e o teatro em uníssono: “Ahhhhhhhhhhh”. Foi lindo. Lindo também foi reger as pessoas com o poema de “Nas Mãos em Conchas do Meu Amor” de Ivan Odara.

Depois participei de eventos literários do Nós Pós em outros locais, como as edições de verão numa sorveteria nos Aflitos.

O Nós Pós é muito mais que um grupo de poetas ou um evento. O Nós Pós desenvolve ações - desde projetos, planejamento de eventos e projetos gráficos até manutenção de terminal de divulgação - que visam contribuir para o desenvolvimento das artes, focando na nova geração de artistas contemporâneos.

Fiquei muito honrado em participar de sua história!

http://nospos.blogspot.com/

De Alguns Poetas da Terra da Laranja – TIGÚ GUIMARÃES

Tigú Guimarães mora em Madrid na Espanha e quando não está lá, está em Santo Domingo na República Dominicana. Suas passagens pelo Brasil são sempre muito corridas e concorridas, mas aproveitadas saborosamente. E numa dessas visitas a sua cidade natal me contou que queria fazer um filme sobre os poetas de lá, Nova Iguaçu.

Bacana. Ele marcou às 9h de um sábado no Bar Raízes para pegar os depoimentos e tal. Eu bebi como um beduíno que encontra um oásis na sexta-feira. No sábado estava estragadaço, quando o telefone tocou ao meio-dia: “Porra Cézar Ray, só falta você e amanhã vou para Madrid”. Não podia deixar de ir, mesmo com uma ressaca godzilla.

Cheguei lá com o sol a pino. Tigú me colocou o microfone de lapela. Explicou-me como seria minha participação: “Vou te fazer umas perguntas e você responde, só isso”. Beleza. Quantas vezes já contei a história do Desmaio Públiko. Ou de como comecei a escrever. Pobre Cézar Ray. Quando Tigu disse: “Ação!”, já deu um frio na espinha. Aí ele me manda a primeira pergunta: “Por que Poesia?”

Fudeu.

Até hoje ele diz que eu amarelei. E foi verdade. Não sei porque, se o sol agressivo, a ressaca medonha, o nervosismo imprevisível, me roubaram as palavras e minha participação do filme é pífia, curtinha e nervosa. Mas não tira o brilho do filme que traz maravilhosamente Liriam Tabosa, Sil, Moduan Matus e Naldo Calazans. E ainda é permeada com poemas de Alcides Eloy, Jorge Cardozo, Reginaldo Bastos, Ivone Landim entre outros.

Com uma edição dinâmica e tomadas em movimentos milagrosos, o filme não dá descanso ao expectador. É poesia e poesia e poesia e poesia. Uma metralhadora incessante na mente, nos ouvidos, nos olhos e nos corações de quem assiste. Faz também uma homenagem a três poetas que haviam falecido: Soneca, Samaral e Lobo. Eu tirei um zero como personagem, mas Tigú Guimarães e meus amigos poetas mereceram um dez! Um 10+!!