quarta-feira, 9 de março de 2011

Bonde Errado





Ele estava ressabiado. Tinha lido no horóscopo do dia que teria surpresas desagradáveis. Mas o vício falava mais alto e foi invadir a Mangueira. Pegou o trem em Mesquita. Parador. Tinha que andar bastante para chegar na boca. Pedreira. Mas valia o sacrifício. Diziam que a de 20 estava um veneno. Vinha há dias só cheirando merda. Teco batizado com pó Royal. Hoje não. Foda-se o horóscopo. Ia cheirar coisa fina. Em homenagem ao nariz de piche do Cartola. “Ouvi dizer que aquela prótese era para substituir o nariz que perdeu de tanto dar fucinhada”. Credo. Pensou. Sabia que era viciado, ainda que não precisasse da dita cuja para viver. Mas dava cada vontade. O nariz coçava só de pensar...

Chegou na boca. Tudo limpeza. “Vem nariz! Vem Nariz!” Gritava o traficante. Moleque novo. 14 anos no máximo. “Olha a de 5! Olha a de 5”. Nada . Queria pegar um pesinho. “Onde é que está a de 20”. Pegou três de vinte. Camuflou na meia. Parou numa birosca, ainda no morro, e tomou umas cervejas. “Espero que a saída esteja limpeza”. Estava. Foi andando em direção à estação. Tudo muito tranqüilo no caminho. Já a estação estava cheia. Eram seis horas. “Caralho! Trem lotado!”. Dito e feito. A lata de sardinha fervia. Empurra daqui, empurra dali. Encosta numa das portas e fica. O flagrante na meia não o deixava relaxar por completo. Achava que todos estavam olhando-o. Não tinha muita experiência em invadir boca. Estava ansioso. Inquieto. Suava. Mas quem não suava naquele inferno?

As viagens de trem, normalmente, são mais rápidas que as de ônibus ou de carro. Ainda mais na hora do rush. Engarrafamento é um dos grandes tormentos do homem moderno. Mas em qualquer país civilizado, é notório que, os meios ferroviários são a grande solução para o transporte de massa. Em várias cidades da Europa, as pessoas vão de carro até as estações, e aí sim, fazem a viagem maior de trem, metrô, bonde ou seja lá o que for. Mas aqui no Rio de Janeiro é foda. Trem: superlotado, Metrô: não vai para todos os lugares. Uma merda!

Dois policiais entram em seu vagão. Gela. Baixa a cabeça. Teme se entregar com os olhos. “Fica frio! Eles estão aqui como passageiros quaisquer”. Espia de rabo de olho. Parece que um está olhando para ele. Abaixa rápido a cabeça. Reza. Mãos suadas unidas em orações de arrependimento. Méier. Falta muito. Mas a viagem é tranqüila. Todo mundo cansado. Todo mundo deprimido. Há um falatório generalizado, mas é quase como se fosse um grande silêncio. Um silêncio ruidoso. Pataco-Pataco.

“Vamos lá lata velha!”. Mas pensa também que se tudo continuar assim, nada irá acontecer com ele. Cascadura. O silêncio barulhento é quebrado por uma voz estridente de mulher. Uma velha. Preta. Grita e segura um vendedor. Acho que de amendoim. Baixa um santo na mulher. Um crente quer exorcizar. O tumulto começa. Estouro de boiada. Lembra do horóscopo. Olha os policias. Um deles tira a arma e investe na multidão. O outro o encara. O trem pára na estação. Já tinha gente saindo pelas janelas antes. Ele é meio que empurrado para fora. Cai no chão. Se protege com as mãos para não ser pisoteado. Escapa. O trem não prossegue viagem. Os policiais, agora com ajuda da polícia da Via Férrea, tira alguns passageiros do vagão e os mandam deitar. Ao lado dele. Pensa: “Fudeu”.

Os policiais começam a revistar um por um. Ele já se imagina preso. Sua família sabendo. Sua mina acabando tudo. Seu patrão o demitindo. “Horóscopo filho da puta”. Não se culpava. Era tudo culpa dos astros. Ou do maldito tijolinho de horóscopo no jornal. O policial que o encarava dentro do trem o reconhece entre os outros e diz: “Libera este aqui. Ele não tem nada a ver com a confusão. Estava longe.” Não acredita. Não sabe se fica ali para agradecer ou desaparece o mais rápido possível. Escolhe a segunda. No ônibus Cascadura / Nova Iguaçu da Viação Penha agradece a Deus e promete que nunca mais vai cheirar em sua vida. Claro, depois daqueles três papéis de 20 que estão na meia. E que não vê a hora, conta os segundos para abri-los e mandá-los para dentro... Mas aqueles serão os últimos. Os últimos...

Um comentário:

Edvaldo disse...

Belo amigo Cezar Ray, gostei muito do seu Blog Zarayland e vou mais longe,adorei respirar de novo suas palavras bem ditas, descritas com a maestria de quem sonha com tudo que malabariza a delirante vida. Confesso,não sei escrever em prosa, essa mania de rimar me persegue e
me obriga por absoluta limitação de
estilo a tornar o texto breve. gosta ria muito saber contar estórias e assim desabotoar meu peito em loas,gravando assim na pedra peremptória tudo que eu não sei e que porém, me sabe; inocente e benfazejo indagador.
Te amo, em paralelo a tudo o que é
belo.
Te desejo sempre muito sucesso, meu parceiro de sonhos maiúsculos, Delírios, auroras e crepúsculos.